O livro / Conclusão / capítulo 59 de 60

Seu trabalho faz parte de sua vida e você precisa começar a tratá-lo dessa forma

Adriano Meirinho · Marketing e Gestão Postos à Prova (2018) · 3 min de leitura

Certo, parece óbvio, mas não é bem assim. O que costuma-se ouvir por aí é que trabalhamos para viver. Ou seja, que o trabalho é aquilo que fazemos como obrigação para podermos construir uma vida plena, satisfatória. Entretanto, não é possível nem aconselhável separar o trabalho da vida. Dietmar Kamper discute em O Trabalho como Vida essa relação danosa que geramos ao distanciarmos o trabalho do lazer, do jogo, do culto, da vida. Acreditamos que o trabalho se expande como erva daninha e toma conta da vida. Todos estão tremendamente ocupados com o trabalho e, por consequência disso, não vivem. Segundo Kamper, o trabalho tende a ser desmedido e a vida tende a se tornar desamparada.

A mesma sociedade que colocou o trabalho em um pedestal, que o valorizou como aquilo que dá sentido à vida, agora o detesta e o reprime ao mesmo tempo que não consegue abandoná-lo e não consegue incorporá-lo à vida. Mas o trabalho está presente em todas as esferas dela, no lazer e no amor. A vida também pode ser dura e o trabalho também pode ser prazeroso. Somos aquilo que criamos, somos o resultado de nosso trabalho, o Frankenstein que geramos e as consequências de trazê-lo ao mundo. O trabalho que fazemos não precisa

ser entendido como aquilo que dignifica a vida, mas como uma das variantes que dá a ela sentido, traz junto a ela uma carga. Precisamos aprender a medir esse trabalho, sem dissociá-lo da vida. Falamos tanto de “não levar trabalho para casa” ou de “dividir a vida profissional da pessoal”, mas será que isso é possível? Não existe um botão de liga e desliga, uma alavanca que mude de um modo de viver para outro. Eles estão todos interligados em nosso emocional. Imaginamos que a vida deveria ser mais acelerada, mais rápida para que pudesse render mais. O ócio e o lazer são formas de interromper esse ritmo acelerado do trabalho, oferecem resistência com relação ao tempo.

Já temos feito experiências de uma vida onde o trabalho também pode funcionar em um ritmo flutuante, ou seja, onde é possível que as pessoas cheguem para trabalhar em horários diferentes, trabalhem efetivamente por mais tempo e saiam mais cedo. Já existem empresas que estimulam os funcionários a exercer o ofício com propósito, que impulsionam capacidades de expressão pessoal. E isso tem funcionado de alguma forma, ainda em construção. Talvez seja a esperança de um caminho para vidas cheias de trabalho e ainda assim mais saudáveis. Ter orgulho do trabalho que se faz, ter a gana de aperfeiçoar sempre e ser reconhecido por isso, fazer as tarefas no seu próprio tempo e com qualidade, é mais do que ter um bom dia de trabalho, é reunir energias para as relações pessoais, para o lazer, para a saúde, para a vida. “Já hoje as pessoas tem vergonha do ócio e quando elas se dedicam a um longo período de reflexão e contemplação, elas já estão com a consciência suja. Pensamos com o relógio na mão, e comemos no almoço com o relógio na mão, olhando para a seção de economia e o

relatório da bolsa de valores no jornal, amamos como pessoas que poderiam perder alguma coisa. É melhor fazer alguma coisa do que não fazer nada.” A Gaia Ciência, de 1882, e Nietszche já previa um futuro de mais de cem anos. Dissociar o trabalho da vida deixa de ser saudável quando acreditamos que um é melhor do que o outro, que um só existe como obrigação para o outro. Trabalhamos para colhermos os frutos de nosso trabalho. Mas e se a hora da colheita chegar tarde demais? Teremos vivido?

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