Em 1995, com 14 anos, faltei na escola pra passar o dia inteiro com uma mini revistinha da INFO que ensinava a fazer uma página de internet em 10 passos. Fiz uma página com fundo branco e letra preta, depois aprendi a mexer no Paint Shop Pro, coloquei um anúncio no Primeiramão e arrumei meu primeiro cliente. Ninguém me chamava de programador, eu só queria colocar uma ideia no ar.
Lembrei disso vendo a quantidade de gente torcendo o nariz pro vibecoding e dizendo que isso não é programar de verdade. Esse discurso é velho. Os copistas falaram a mesma coisa do livro impresso, os pintores falaram da fotografia, e a Kodak chegou a inventar a câmera digital em 1975 e guardar na gaveta pra proteger o filme. Quem defendeu a barreira em vez da criação geralmente ficou pra trás. O vibecoding não acabou com a programação, acabou com o pedágio que existia pra quem tinha uma ideia e não dominava a sintaxe.
Em 2017 escrevi no meu livro que inovação só acontece na bagunça, em meio ao caos, e que o que é realmente inovador toma grandes riscos, irrita muita gente e pode muito bem ser mal entendido. Escrevi também que quem olha de fora costuma enxergar melhor o todo. Hoje quem está de fora consegue construir, e isso incomoda.
Sobre o argumento da segurança, não é disso que estou falando aqui. Aplicação insegura existe aos montes com código escrito na mão, por gente muito experiente. Nas últimas semanas apareceram falhas críticas no próprio PHP, que roda cerca de 70% dos sites do mundo e estavam lá havia mais de dez anos, além de vulnerabilidades em Node.js e Plex, ataques à Railway e ao LiteLLM e governo tirando site do ar às pressas. PHP, inclusive, foi a linguagem que eu aprendi em 1999.
Nada contra quem escreve cada linha na mão, eu também comecei assim. Mas quem encontrou essas falhas no PHP foi a IA, a mesma que hoje está por trás do vibecoding. Os estudos ainda mostram que código gerado por IA tem seus problemas de segurança, e não vou fingir que não. Só que uma IA capaz de achar falhas que passaram despercebidas por mais de dez anos vai aprender a não colocar essas falhas no código muito mais rápido do que qualquer pessoa. Minha aposta é que, em pouco tempo, o vibecoding vai ser mais seguro que código 100% escrito na mão.
Publicado originalmente no X: https://x.com/adrianomeirinho/status/2115109130138468388